Oftalmologia Geral · Glaucoma · Catarata — Jundiaí/SP CRM-SP 208.440 · RQE 134.129 · @oftalmoanahelena
Dra. Ana Helena – Oftalmologista
Guia do paciente

Glaucoma: o ladrão silencioso da visão

O glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível no mundo. A boa notícia é que, com diagnóstico precoce e tratamento adequado, a grande maioria dos pacientes preserva a visão por toda a vida.

Dra. Ana Helena com modelo anatômico do olho

O que é glaucoma?

Glaucoma é um grupo de doenças que causam lesão progressiva do nervo óptico, o “cabo” que leva as imagens do olho ao cérebro. Com o tempo, as fibras desse nervo morrem e a visão vai sendo perdida, geralmente da periferia para o centro.11

O principal fator de risco que pode ser modificado é a pressão intraocular (PIO). O olho produz continuamente um líquido chamado humor aquoso, que é drenado por uma estrutura chamada malha trabecular. Quando essa drenagem não funciona bem, a pressão sobe e, ao longo dos anos, lesa o nervo óptico. O glaucoma também pode ocorrer com pressão considerada normal.

76 milhõesde pessoas tinham glaucoma no mundo em 2020, com projeção de 111,8 milhões em 20402
3,6 milhõesde pessoas com 50 anos ou mais estão cegas por glaucoma, a 2ª causa de cegueira no mundo1
IrreversívelA visão perdida não volta. O tratamento serve para impedir que a perda avance.

Tipos de glaucoma

  • Glaucoma primário de ângulo aberto: o mais comum. Evolui lentamente e sem sintomas durante anos.
  • Glaucoma de ângulo fechado: a íris bloqueia a drenagem do olho. Pode ser crônico ou causar uma crise aguda, que é uma urgência oftalmológica. Nesses casos, a cirurgia do cristalino pode ser um tratamento eficaz.12
  • Glaucoma de pressão normal: há lesão do nervo óptico mesmo com pressão dentro da faixa considerada normal.
  • Glaucomas secundários: causados por outras condições, como síndrome pseudoesfoliativa, dispersão pigmentar, uso de corticoides, inflamação (uveíte), trauma ou diabetes.
  • Glaucoma congênito e juvenil: surgem em bebês, crianças ou adultos jovens e precisam de diagnóstico e tratamento precoces.

Sintomas: por que o glaucoma é “silencioso”?

Na forma mais comum, o glaucoma não dói, não deixa o olho vermelho e não altera a visão central no início. A perda começa pela visão lateral (periférica), e o cérebro compensa as falhas. Por isso, muitas pessoas só percebem quando a doença já está avançada.

Atenção para a crise aguda (ângulo fechado): dor forte no olho, olho vermelho, visão embaçada, halos coloridos em volta das luzes, dor de cabeça, náuseas e vômitos. Procure atendimento oftalmológico imediatamente.

Fatores de risco

  • Idade acima de 40 anos: o risco aumenta progressivamente com a idade.2
  • Histórico familiar: parentes de primeiro grau de pessoas com glaucoma têm risco cerca de 9 vezes maior de desenvolver a doença.5
  • Pressão intraocular elevada: é o principal fator de risco modificável.4
  • Ascendência africana: maior prevalência e formas mais agressivas do glaucoma de ângulo aberto.2
  • Córnea fina: identificada como fator de risco no estudo OHTS.4
  • Miopia alta (risco de ângulo aberto) e hipermetropia (risco de ângulo fechado).
  • Uso prolongado de corticoides, em colírio, pomada, comprimido, injeção ou spray.
  • Outros: diabetes, trauma ocular prévio, apneia do sono e alterações da pressão arterial.

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Exames e diagnóstico

Não existe um exame único para o glaucoma. O diagnóstico combina a consulta com exames complementares, e boa parte deles é feita no próprio consultório:

ExameO que avalia
TonometriaMede a pressão intraocular.
FundoscopiaExamina diretamente o nervo óptico em busca de sinais de lesão (escavação).
GonioscopiaAvalia o ângulo de drenagem do olho e diferencia o glaucoma de ângulo aberto do de ângulo fechado.
PaquimetriaMede a espessura da córnea, que influencia a leitura da pressão e o risco.
OCT (tomografia de coerência óptica)Mede com precisão micrométrica a camada de fibras nervosas e detecta lesões antes que afetem a visão.
Campo visual (perimetria)Mapeia a visão periférica e acompanha se a doença está estável ou progredindo.

Depois do diagnóstico, os exames são repetidos periodicamente para confirmar se o tratamento está controlando a doença.

Tratamento: por que baixar a pressão funciona

Reduzir a pressão intraocular é, até hoje, a única estratégia comprovada para frear o glaucoma, e as evidências são sólidas:

  • No Early Manifest Glaucoma Trial, o tratamento reduziu a progressão da doença, e cada 1 mmHg a menos na pressão diminuiu o risco de progressão em cerca de 10%.3
  • No Ocular Hypertension Treatment Study (OHTS), tratar pessoas com pressão alta reduziu o desenvolvimento de glaucoma em 5 anos de 9,5% para 4,4%.4

Colírios

São o tratamento clássico. Há várias classes (análogos de prostaglandina, betabloqueadores, inibidores da anidrase carbônica, alfa-agonistas, entre outros), que diminuem a produção ou aumentam a drenagem do humor aquoso. Funcionam bem, mas exigem uso diário e contínuo, podem causar irritação e, para muitos pacientes, a adesão é difícil a longo prazo.

Trabeculoplastia seletiva a laser (SLT)

A SLT é um laser de baixa energia aplicado na malha trabecular, que estimula as células da drenagem a funcionarem melhor. É feita no consultório, com colírio anestésico, em poucos minutos, sem cortes, e o paciente volta às atividades no mesmo dia.

O estudo britânico LiGHT, publicado no The Lancet, comparou a SLT como primeiro tratamento com o uso de colírios:

74%dos pacientes tratados com SLT estavam sem colírios após 3 anos6
~70%dos olhos continuavam sem precisar de colírios após 6 anos7
Menos cirurgiasHouve menor progressão e menos cirurgias de glaucoma e de catarata no grupo SLT7

Com base nesses dados, a SLT passou a ser considerada uma opção de primeira linha para glaucoma de ângulo aberto e hipertensão ocular. O efeito pode diminuir com os anos, e o laser pode ser repetido quando indicado.

Cirurgias minimamente invasivas para glaucoma (MIGS)

As MIGS são realizadas por dentro do olho, através de microincisões, preservando a conjuntiva. Em comparação com as cirurgias tradicionais, costumam oferecer recuperação mais rápida e um perfil de segurança mais favorável. Muitas podem ser associadas à cirurgia de catarata.

GATT: trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia

Um fio cirúrgico fino ou microcateter percorre os 360° do canal de Schlemm, o principal canal de drenagem do olho, e abre a malha trabecular, restaurando o escoamento natural. Estudos mostram redução significativa da pressão e do número de colírios, inclusive em glaucomas mais difíceis, como o pseudoesfoliativo.8

Trabeculotomia (Tanito)

Desenvolvido pelo Dr. Masaki Tanito, o microgancho permite abrir a malha trabecular por microincisões na córnea. É um procedimento rápido e que pode ser feito junto com a facoemulsificação. Os estudos mostram redução da pressão e da necessidade de colírios, com resultados comparáveis aos de outras técnicas de trabeculotomia.9

iStent

O iStent é um dos menores dispositivos médicos já implantados no ser humano. Ele cria uma ponte entre a câmara anterior e o canal de Schlemm. No estudo pivotal do iStent inject associado à cirurgia de catarata, 75,8% dos olhos atingiram redução de pelo menos 20% da pressão sem colírios em 2 anos, contra 61,9% com a cirurgia de catarata isolada.10

Qual cirurgia é a melhor? Depende do tipo e do estágio do glaucoma, da pressão-alvo, da presença de catarata e do perfil de cada paciente. Em casos avançados, podem ser indicadas cirurgias filtrantes tradicionais (trabeculectomia) ou implantes de drenagem. A escolha é feita em conjunto, depois de uma avaliação completa.

Convivendo com o glaucoma

  • Não interrompa os colírios por conta própria, mesmo que você não sinta diferença. A doença é silenciosa e o tratamento também.
  • Aplique o colírio e feche os olhos por 1 a 2 minutos, pressionando levemente o canto interno. Isso aumenta o efeito e reduz os efeitos colaterais.
  • Se usar mais de um colírio, espere 5 minutos entre eles.
  • Mantenha as consultas e os exames periódicos. Só assim é possível saber se a doença está controlada.
  • Avise sobre o glaucoma a outros médicos, principalmente antes de usar corticoides.
  • Incentive seus familiares a fazer o exame, porque o risco é maior entre parentes.

Tem glaucoma ou fatores de risco?

Agende uma avaliação completa, com medida da pressão, exame do nervo óptico e, se necessário, OCT e campo visual.

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Referências científicas

  1. GBD 2019 Blindness and Vision Impairment Collaborators; Vision Loss Expert Group. Causes of blindness and vision impairment in 2020 and trends over 30 years. Lancet Glob Health. 2021;9(2):e144–e160. doi:10.1016/S2214-109X(20)30489-7
  2. Tham YC, Li X, Wong TY, et al. Global prevalence of glaucoma and projections of glaucoma burden through 2040: a systematic review and meta-analysis. Ophthalmology. 2014;121(11):2081–2090. PubMed
  3. Heijl A, Leske MC, Bengtsson B, et al. Reduction of intraocular pressure and glaucoma progression: results from the Early Manifest Glaucoma Trial. Arch Ophthalmol. 2002;120(10):1268–1279. PubMed
  4. Kass MA, Heuer DK, Higginbotham EJ, et al. The Ocular Hypertension Treatment Study: a randomized trial determines that topical ocular hypotensive medication delays or prevents the onset of primary open-angle glaucoma. Arch Ophthalmol. 2002;120(6):701–713. PubMed
  5. Wolfs RC, Klaver CC, Ramrattan RS, et al. Genetic risk of primary open-angle glaucoma: population-based familial aggregation study. Arch Ophthalmol. 1998;116(12):1640–1645. PubMed
  6. Gazzard G, Konstantakopoulou E, Garway-Heath D, et al. Selective laser trabeculoplasty versus eye drops for first-line treatment of ocular hypertension and glaucoma (LiGHT): a multicentre randomised controlled trial. Lancet. 2019;393(10180):1505–1516. PubMed
  7. Gazzard G, Konstantakopoulou E, Garway-Heath D, et al. Laser in Glaucoma and Ocular Hypertension (LiGHT) trial: six-year results of primary selective laser trabeculoplasty versus eye drops. Ophthalmology. 2023;130(2):139–151. doi:10.1016/j.ophtha.2022.09.009
  8. Grover DS, Godfrey DG, Smith O, et al. Gonioscopy-assisted transluminal trabeculotomy, ab interno trabeculotomy: technique report and preliminary results. Ophthalmology. 2014;121(4):855–861. PubMed
  9. Tanito M. Microhook ab interno trabeculotomy, a novel minimally invasive glaucoma surgery. Clin Ophthalmol. 2018;12:43–48. PubMed
  10. Samuelson TW, Sarkisian SR Jr, Lubeck DM, et al. Prospective, randomized, controlled pivotal trial of an ab interno implanted trabecular micro-bypass in primary open-angle glaucoma and cataract: two-year results. Ophthalmology. 2019;126(6):811–821. PubMed
  11. Weinreb RN, Aung T, Medeiros FA. The pathophysiology and treatment of glaucoma: a review. JAMA. 2014;311(18):1901–1911. PubMed
  12. Azuara-Blanco A, Burr J, Ramsay C, et al. Effectiveness of early lens extraction for the treatment of primary angle-closure glaucoma (EAGLE): a randomised controlled trial. Lancet. 2016;388(10052):1389–1397. PubMed

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