O que é glaucoma?
Glaucoma é um grupo de doenças que causam lesão progressiva do nervo óptico, o “cabo” que leva as imagens do olho ao cérebro. Com o tempo, as fibras desse nervo morrem e a visão vai sendo perdida, geralmente da periferia para o centro.11
O principal fator de risco que pode ser modificado é a pressão intraocular (PIO). O olho produz continuamente um líquido chamado humor aquoso, que é drenado por uma estrutura chamada malha trabecular. Quando essa drenagem não funciona bem, a pressão sobe e, ao longo dos anos, lesa o nervo óptico. O glaucoma também pode ocorrer com pressão considerada normal.
Tipos de glaucoma
- Glaucoma primário de ângulo aberto: o mais comum. Evolui lentamente e sem sintomas durante anos.
- Glaucoma de ângulo fechado: a íris bloqueia a drenagem do olho. Pode ser crônico ou causar uma crise aguda, que é uma urgência oftalmológica. Nesses casos, a cirurgia do cristalino pode ser um tratamento eficaz.12
- Glaucoma de pressão normal: há lesão do nervo óptico mesmo com pressão dentro da faixa considerada normal.
- Glaucomas secundários: causados por outras condições, como síndrome pseudoesfoliativa, dispersão pigmentar, uso de corticoides, inflamação (uveíte), trauma ou diabetes.
- Glaucoma congênito e juvenil: surgem em bebês, crianças ou adultos jovens e precisam de diagnóstico e tratamento precoces.
Sintomas: por que o glaucoma é “silencioso”?
Na forma mais comum, o glaucoma não dói, não deixa o olho vermelho e não altera a visão central no início. A perda começa pela visão lateral (periférica), e o cérebro compensa as falhas. Por isso, muitas pessoas só percebem quando a doença já está avançada.
Fatores de risco
- Idade acima de 40 anos: o risco aumenta progressivamente com a idade.2
- Histórico familiar: parentes de primeiro grau de pessoas com glaucoma têm risco cerca de 9 vezes maior de desenvolver a doença.5
- Pressão intraocular elevada: é o principal fator de risco modificável.4
- Ascendência africana: maior prevalência e formas mais agressivas do glaucoma de ângulo aberto.2
- Córnea fina: identificada como fator de risco no estudo OHTS.4
- Miopia alta (risco de ângulo aberto) e hipermetropia (risco de ângulo fechado).
- Uso prolongado de corticoides, em colírio, pomada, comprimido, injeção ou spray.
- Outros: diabetes, trauma ocular prévio, apneia do sono e alterações da pressão arterial.
Exames e diagnóstico
Não existe um exame único para o glaucoma. O diagnóstico combina a consulta com exames complementares, e boa parte deles é feita no próprio consultório:
| Exame | O que avalia |
|---|---|
| Tonometria | Mede a pressão intraocular. |
| Fundoscopia | Examina diretamente o nervo óptico em busca de sinais de lesão (escavação). |
| Gonioscopia | Avalia o ângulo de drenagem do olho e diferencia o glaucoma de ângulo aberto do de ângulo fechado. |
| Paquimetria | Mede a espessura da córnea, que influencia a leitura da pressão e o risco. |
| OCT (tomografia de coerência óptica) | Mede com precisão micrométrica a camada de fibras nervosas e detecta lesões antes que afetem a visão. |
| Campo visual (perimetria) | Mapeia a visão periférica e acompanha se a doença está estável ou progredindo. |
Depois do diagnóstico, os exames são repetidos periodicamente para confirmar se o tratamento está controlando a doença.
Tratamento: por que baixar a pressão funciona
Reduzir a pressão intraocular é, até hoje, a única estratégia comprovada para frear o glaucoma, e as evidências são sólidas:
- No Early Manifest Glaucoma Trial, o tratamento reduziu a progressão da doença, e cada 1 mmHg a menos na pressão diminuiu o risco de progressão em cerca de 10%.3
- No Ocular Hypertension Treatment Study (OHTS), tratar pessoas com pressão alta reduziu o desenvolvimento de glaucoma em 5 anos de 9,5% para 4,4%.4
Colírios
São o tratamento clássico. Há várias classes (análogos de prostaglandina, betabloqueadores, inibidores da anidrase carbônica, alfa-agonistas, entre outros), que diminuem a produção ou aumentam a drenagem do humor aquoso. Funcionam bem, mas exigem uso diário e contínuo, podem causar irritação e, para muitos pacientes, a adesão é difícil a longo prazo.
Trabeculoplastia seletiva a laser (SLT)
A SLT é um laser de baixa energia aplicado na malha trabecular, que estimula as células da drenagem a funcionarem melhor. É feita no consultório, com colírio anestésico, em poucos minutos, sem cortes, e o paciente volta às atividades no mesmo dia.
O estudo britânico LiGHT, publicado no The Lancet, comparou a SLT como primeiro tratamento com o uso de colírios:
Com base nesses dados, a SLT passou a ser considerada uma opção de primeira linha para glaucoma de ângulo aberto e hipertensão ocular. O efeito pode diminuir com os anos, e o laser pode ser repetido quando indicado.
Cirurgias minimamente invasivas para glaucoma (MIGS)
As MIGS são realizadas por dentro do olho, através de microincisões, preservando a conjuntiva. Em comparação com as cirurgias tradicionais, costumam oferecer recuperação mais rápida e um perfil de segurança mais favorável. Muitas podem ser associadas à cirurgia de catarata.
GATT: trabeculotomia transluminal assistida por gonioscopia
Um fio cirúrgico fino ou microcateter percorre os 360° do canal de Schlemm, o principal canal de drenagem do olho, e abre a malha trabecular, restaurando o escoamento natural. Estudos mostram redução significativa da pressão e do número de colírios, inclusive em glaucomas mais difíceis, como o pseudoesfoliativo.8
Trabeculotomia (Tanito)
Desenvolvido pelo Dr. Masaki Tanito, o microgancho permite abrir a malha trabecular por microincisões na córnea. É um procedimento rápido e que pode ser feito junto com a facoemulsificação. Os estudos mostram redução da pressão e da necessidade de colírios, com resultados comparáveis aos de outras técnicas de trabeculotomia.9
iStent
O iStent é um dos menores dispositivos médicos já implantados no ser humano. Ele cria uma ponte entre a câmara anterior e o canal de Schlemm. No estudo pivotal do iStent inject associado à cirurgia de catarata, 75,8% dos olhos atingiram redução de pelo menos 20% da pressão sem colírios em 2 anos, contra 61,9% com a cirurgia de catarata isolada.10
Convivendo com o glaucoma
- Não interrompa os colírios por conta própria, mesmo que você não sinta diferença. A doença é silenciosa e o tratamento também.
- Aplique o colírio e feche os olhos por 1 a 2 minutos, pressionando levemente o canto interno. Isso aumenta o efeito e reduz os efeitos colaterais.
- Se usar mais de um colírio, espere 5 minutos entre eles.
- Mantenha as consultas e os exames periódicos. Só assim é possível saber se a doença está controlada.
- Avise sobre o glaucoma a outros médicos, principalmente antes de usar corticoides.
- Incentive seus familiares a fazer o exame, porque o risco é maior entre parentes.
Tem glaucoma ou fatores de risco?
Agende uma avaliação completa, com medida da pressão, exame do nervo óptico e, se necessário, OCT e campo visual.
Agendar consultaReferências científicas
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